“'O Alquimista' provoca tédio, uma vez que naufraga em bobices, contradições e desrespeito ao vernáculo. Ademais, a trivialidade leva esse escrito de Paulo Coelho ao cumprimento de todas as etapas das edificações literárias pseudo-refinadas. É, entre as estruturas de mau gosto, um texto exemplar (…). Um escritor à Coelho dá ao leitor aquilo que o leitor espera encontrar no livro – um rodízio de pizza literária, uma vez que a esse leitor foi negado, lamentavelmente, apreciar as finas iguarias poéticas, não sendo, portanto, em termos de mesa literária, um gourmet, mas um gros mangeur de repastos culturais”
É o que escreve Janilto Andrade, doutor em Estética e Poética pela Universidade Federal de Pernambuco e professor de Literatura Brasileira e História das Artes, no livro “Por Que Não Ler Paulo Coelho”, lançado originalmente em 2004 e que agora volta às livrarias pela Confraria do Vento em uma edição revista e ampliada. Na obra, como já ficou claro, Andrade esmiúça um dos livros mais famosos do mago para listar argumentos contrários à leitura do escritor que acaba de publicar “A Espiã”, seu 19º romance.
No ensaio, Andrade se refere a “O Alquimista” como um “pretenso romance” e contrapondo a obra com outras de autores clássicos, contemporâneos e até com “A Turma da Mônica”, mostra que o trabalho de Coelho é repleto de contradições, erros linguísticos que beiram o infantil e formalmente muito pobre.“'Tudo que acontece uma vez, pode nunca mais acontecer. Mas tudo que acontece duas vezes, acontecerá certamente uma terceira' (itálicos meus). É espantosa esta maravilha de sandice! Mais intrigante ainda é alguém escrever isto e alguém ler isto e a Academia Brasileira de Letras ler isto e decretar-se a sapiência literária do seu autor. O mundo todo bestou ou bestei eu? Francamente, é de pasmar!”, registra.
Andrade conta que a ideia do livro surgiu após ouvir a mesma pergunta de diversos alunos: por que os professores de literatura não leem Paulo Coelho? “Fui, aos poucos, me sentindo quase que numa obrigação ético-profissional de responder”.
Na conversa, o autor propõe que o leitor ideal de “O Alquimista” é uma pessoa “atirada no abandono e na solidão urbana, fatigada, cheia do vazio de uma rotina sufocante, perplexa diante da tirania do apelo ao hedonismo, ao narcisismo e ao consumismo, imprensada pelo egoísmo, e que só tem olhos para a urgência da sobrevivência individual” e argumenta que a leitura de um livro do famoso escritor já é o suficiente para que se forme uma opinião sobre todo seu trabalho: “Paulo Coelho é um escrevente de best-seller; assim, lido um título, dispensam-se os outros”.De maneira breve, por que não ler Paulo Coelho?
É invocando predominantemente o aspecto formal de “O Alquimista” que afirmo na minha análise: trata-se de um texto mal estruturado, sem coerência interna, “costurado” com desrespeito ao vernáculo. Por exemplo, aqui, se lê: “Tenho apenas o 'presente', e ele é o que me interessa”; ali, está escrito: “Quero saber o 'futuro' porque sou um homem. E os homens vivem em função do seu 'futuro'”. A certa altura, o narrador afirma: “Os cavaleiros entraram no oásis (…), parecia uma expedição de paz, mas 'haviam' armas escondidas 'sobre' os mantos.” Como recomendar a leitura de uma obra assim?
E se não deve ser lido, por que tanta gente o lê e o venera?
É uma questão que se alinha com esta: por que o filme “X” tornou-se um autêntico “arrasa-quarteirão”? A despeito de não compor o objeto de análise do meu livro, talvez seja pertinente, para não deixar a sua pergunta sem resposta, propor que o leitor ideal de “O Alquimista” seja aquela pessoa atirada no abandono e na solidão urbana, fatigada, cheia do vazio de uma rotina sufocante, perplexa diante da tirania do apelo ao hedonismo, ao narcisismo e ao consumismo, imprensada pelo egoísmo, e que só tem olhos para a urgência da sobrevivência individual. Por não conseguir resolver esses impasses, atira-se, de corpo e alma, cegamente, em bobices culturais “da vez”, como “O Alquimista”, acreditando se fortalecer – quando apenas está pondo uma venda nos olhos – lendo tolices como esta: “não tinha um centavo no bolso mas tinha fé”. Na compra de feijão, o Extra aceita fé, em vez de real…!?
O que você tem a dizer para quem pede por Paulo Coelho entre as leituras obrigatórias da escola?
Excelente questão! E existe, mesmo, alguém que pede!? Não quero acreditar que colegas meus integrem o grupo de pessoas às quais me referi na resposta anterior. O que tenho a dizer? Primeiramente, essa prática de obrigar a ler é obsoleta, ranço do autoritarismo. Há que motivar, não obrigar a ler… Ademais, quem obriga (!) esse tipo de literatura na escola talvez tenha feito uma leitura às pressas; não pôs o texto sob as lentes da atenção, da análise, da inquirição. A dizer alguma coisa, talvez eu preferisse saber como o meu ou minha colega consegue ensinar, lendo, estudando, analisando, comentando, com seus alunos, frases como esta, de “O Alquimista”: “Tudo o que acontece uma vez, pode nunca mais acontecer. Mas tudo que acontece duas vezes, acontecerá certamente uma terceira”. A sua explicação quanto ao emprego das duas vírgulas muito me enriqueceria, ao que ficaria agradecido.

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